Em um cenário que mistura ficção e crítica social, uma simples conversa entre avô e neto revive o papel dos advogados em um mundo que já não os reconhece. A ausência desses profissionais revela muito além da obsolescência de uma carreira: aponta a deterioração do próprio conceito de justiça.
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A distopia jurídica exposta simboliza a fragilidade das instituições quando confrontadas por avanços tecnológicos descontrolados, políticas públicas negligentes e um desmonte contínuo do pensamento crítico no ensino jurídico.
O colapso da advocacia e o avanço da tecnologia
Primeiro veio a proliferação desenfreada de cursos de Direito em todo o país. Incentivados pelo Estado e ignorados pelo Ministério da Educação, passaram a formar bacharéis sem o devido preparo técnico ou ético. A qualidade do ensino despencou enquanto títulos eram distribuídos como brindes em cerimônias universitárias.
Simultaneamente, a tecnologia, antes uma aliada, tornou-se o novo protagonista. A criação de aplicativos e sistemas de inteligência artificial para resolução de conflitos substituiu o aconselhamento jurídico. A prática da profissão foi gradualmente sufocada pela ideia de “acesso facilitado à justiça”, que, na prática, eliminava o elemento humano envolvido no julgamento e na mediação dos direitos.
O Centro Nacional de Justiça (CNJ) consolidou esse modelo ao estimular a simplificação extremada dos processos e ao institucionalizar robôs como o “Victor” e a “Maria”. Aplicações como essas processavam milhares de julgamentos em minutos, sem contraditório efetivo ou espaço para defesa técnica. O ideal do “julgamento justo” foi reconfigurado para caber em linhas de código.
O enfraquecimento sistêmico da profissão
A desvalorização da atuação do advogado foi ainda mais agravada por normativas judiciais que limitaram a remuneração desses profissionais. Honorários baixíssimos, muitas vezes irrisórios, levaram à precarização da categoria jurídica. A compensação de honorários e o desprezo às garantias da sucumbência demonstravam, sob ares de modernização, a retração de princípios fundamentais da profissão.
Além disso, o Estado passou a fornecer defensores gratuitos até para acusados com condições financeiras, incentivando o “probonismo compulsório” e desprestigiando a advocacia privada. Em vez de fortalecer a cidadania, a medida descartava o valor da atuação técnica do advogado.
Nas pequenas cidades, o impacto foi ainda mais devastador. O acesso gratuito à justiça por meio de robôs e defensores públicos obrigatórios afastou as pessoas da advocacia tradicional. Em um cenário de desemprego jurídico, muitos profissionais trocaram a advocacia pela direção de táxis, comercio de cosméticos e atuação como influenciadores.
O Judiciário digital e o fim da crítica
A virtualização extrema também cristalizou um novo paradigma: processos eletrônicos com decisões automatizadas. A alegoria do julgamento em milissegundos tornou-se alarmantemente real. A homologação irrestrita de precedentes automatizados contribuiu para a banalização do Direito como processo de pensar, interpretar e decidir.
A argumentação jurídica morreu junto com a tradição das sustentações orais. Em seu lugar, passaram a circular vídeos gerados por inteligências artificiais, inseridos automaticamente no sistema judicial. A consequência foi o colapso da dialética processual e o distanciamento cada vez maior entre o julgador e as partes.
A própria jurisprudência, muitas vezes elaborada em workshops e “eventos de precedentes qualificados”, passou a valer mais que a Constituição. O Direito, enfim, tornou-se um acervo de frases protocoladas e insuscetíveis à crítica, em um cenário de “monocratismo algorítmico”.
O impacto no ensino e cultura jurídica
A decadência da formação jurídica foi peça-chave na distopia descrita. Professores passaram a ministrar aulas com “truques de prova” e “resumos” em vez de transmitir conhecimento crítico. O “jusbrainrot” — apodrecimento do cérebro jurídico — foi acelerado pela superficialidade dos conteúdos, alimentados por apostilas, vídeos curtos e dancinhas com dicas de memorização.
Livros foram convertidos em peças decorativas ou alvos de censura, sob o pretexto de combater “ideologias perigosas”. A leitura foi substituída por rankings de depoimentos e resumos no TikTok. Autores como Machado de Assis ou Eça de Queiroz desapareceram do currículo, reduzindo a experiência de aprender Direito a uma repetição de fórmulas e algoritmos.
Esse esvaziamento intelectual também impediu a formação de massa crítica para resistir aos abusos do sistema. A democracia jurídica entrou em colapso quando o saber técnico foi reduzido, as instituições silenciaram e a opinião pública perdeu a capacidade de compreender o próprio sistema de justiça.
O Leviatã sucumbido pela eficiência
A inteligência artificial, apoiada por empresas e governos, passou a sustentar a base do Judiciário. Robôs como “Exterminator One” foram criados para acelerar decisões de forma industrial. Nessas circunstâncias, os algoritmos passaram a julgar não por justiça, mas por probabilidade, estatísticas e custos processuais.
Sem contraditório efetivo, e com decisões replicadas por padrões automatizados, os processos passaram a obedecer a um modelo de “Justiça self-service”. Não havia tempo, espaço ou necessidade de argumentos humanos. Admissões e denegações de recursos seguiam fórmulas irrecorríveis. A taxa de provimento recursal tornara-se residual: apenas 1% a cada cem processos. Isso quando eram admitidos.
Nesse contexto, conceitos como presunção de inocência, ampla defesa ou princípio do contraditório tornaram-se obsoletos no âmbito jurídico. O Estado, transformado em ente punitivo, passou a tratar o cidadão como inimigo. Os Ministérios Públicos se engajaram como “partes técnicas” voltadas à condenação, transformando o sistema penal em um campo de batalha, e não mais de garantias.
Últimos reflexos de um sistema apagado
A metáfora final apresentada no conto — sobre a criança que não conhece a palavra “livro” — escancara o colapso cultural e institucional que acomete a Justiça, o ensino e a democracia. A perda da advocacia não foi apenas um evento profissional: foi o sinal inequívoco do fim do espaço público deliberativo.
Sem advogados, não há mediação entre o poder e seus limites. E, como ensina a célebre passagem de Shakespeare citada na narrativa, uma das primeiras ordens de tiranos é sempre calar os advogados. Eles são os freios de qualquer Leviatã descontrolado.
A destruição da advocacia, portanto, simboliza também o desaparecimento da própria democracia. Afinal, o Direito sem quem o defenda é só um reflexo protocolar de autoridade — e não de justiça. Em meio à automatização das consciências, restou apenas o silêncio do código.
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Redação jornalística da Elias & Cury Advogados Associados.